quarta-feira, 25 de maio de 2011

FIO DENTAL



Mari Lúcia passa os dias à beira-da-piscina do Hotel banhando-se de sol e bebendo Pina Colada. Mandou trazer especialmente na Amazônia um bronzeador à base de Urucum, diz a amiga manicure, que foi quem fez o cambalacho no Brasil, que o bronzeador tem sêmen de índio pataxó, Mari Lúcia descarta essa hipótese, afinal agora ela mora em Las Vegas e acredita que tudo no mundo é inventado. Até mesmo os índios inventam tanta segredo e pampeiro com as ervas para faturar alto.
Imagine que Francisco Medeiros inventava 70% as resenhas dos shows que ele cobria como crítico de música, ele escrevia para os leitores dizendo que ia nos shows, mas não ia, Mari Lucia é que escrevia as resenhas dos shows. Era fantástico aquilo colocar o CD do tal para ouvir e fazer a resenha, de camisa branca social e calcinha preta, sentada na poltrona do sofá, com o notebook, bebendo conhaque e olhando a paisagem na Vila Romana, como se tivesse ido ao show. Aquilo era o nirvana, um texto tão perfeito que nem o editor desconfiava do truque. A vocação de Mari Lúcia sempre fora a de vagabunda. Ela se lembra bem do show do Santana no Anhembi que Medeiros preferiu acompanhá-la ao Shopping Borboun, para comprar calcinhas novas, a assistir ao show do Mexicano.

Pois seguiu sua verdadeira vocação e tem se dado muito bem em Las Vegas com o negócio de calcinhas usadas. Calcinha de morango, calcinha framboesa, calcinha comestível, a brasileira não deixa barato, diz que nunca jogou para perder, fatura alto com os gringos vendendo suas calcinhas de seda egípcia.
Descobriu as comunidades na internet, criou um clube privé só para os que comulsão por calcinha usada pela musa. Já chegou a vender uma calcinha de renda por hum mil e quinhentos dólares. O tal que comprou era piloto da fórmula 1, da escuderia da Ferrari, e pediu sigilo total. O trato foi feito assim: numa lanchonete de beira de estrada, de jeans, camiseta branca básica, bota cano alto, e rabo-de-cavalo, bem discreta com uma bolsa de pele de carneiro sintética à tiracolo. Sentou-se na mesa, pediu um frapê de baunilha, colocou o livro de capa vermelha sob a mesa, esse era o código de que ela era a dona da calcinha mais cara vendida no dia na comunidade dos obsessivos por calcinha. O piloto chegou e discretamente deu-lhe dois beijos no rosto como se fossem antigos conhecidos. Três homens fortes à paisana cuidavam de sua segurança. Em seguida ele pediu um shake, tomou e um gole e pediu para Mari Lúcia provar see a calcinha que ela lhe vendia era mesmo usada. Todos seus clientes abominavam qualquer tipo de truque com calcinha não fosse legitimamente usada. Mari Lúcia finge derrubar o livro debaixo da mesa, jogando-o propositalmente no chão, abaixa-se para pegá-lo, e claro, a posição deixa a mostra as alças fininhas da calcinha fio dental preta. Em seguida a eterna musa de Francisco Medeiros vai até o banheiro da lanchonete, retorna com uma embalagem de presente e entrega nas mãos do piloto. Observa que os olhos do piloto emitem um brilho diferenciado, que vai além do charmoso Ray-Ban modelo caçador, e suas vestes mais volume. As notas no valor de hum mil e quinhentos dólares são por ele postas discretamente dentro do livro. Pronto acordo selado! Despedem-se cada um volta para o seu roteiro de vida. Esse é mais um acréscimo no trabalho extraordinário que Mari Lúcia criou para exportar o know how. Afinal agora ela vem se cansando do papel de musa quer mais viver no anonimato, viajando pelo mundo. Cada dia é uma aventura nova , anuncia uma calcinha e pronto em menos de segundos anunciada na internet já tem comprador. Os tipos de compradores são os mais variados, executivos, homens casados, noivos que foram abandonados na hora H, membros do FBI, entre tantos outros. A maioria paga bem, o que fazem com a calinha depois Mari Lúcia dar de ombros, não é da sua conta.
Sua meta é ir para Hong Kong, se interessa mesmo em levar o negócio das calcinhas usadas para os chineses. Depois que assistiu ao DVD Tóquio em Decadência, a musa que costuma virar as noites nos Cassinos em Las Vegas fica em dúvida sobre as insistentes propostas que tem recebido para vender suas calcinhas usadas aos membros da Yacusa. A manicure Vilminha que se cuide logo, logo a musa lança a moda das calcinhas usadas no Brasil. Mas há coisas mais urgentes a resolver antes de vender as calcinhas, tem que responder o pedido da sua agente editorial Lourds Trévis para publicação do seu novo pocket book: “As Mais Belas frases de Salão de Beleza”. A musa responde o email da agente editorial:
“Lourds querida, espero que esteja tudo bem ai nesse Brasil, que agora vive de marchas: marcha da maconha, marcha para Jesus, marcha para Higienópolis, quanta marcha para fazer esse país ir pra frente,hein? O reinado de pindorama era mais elegante com greves sindicais, agora não tem mais greve, é marcha? Isso é liberdade de expressão? Isso é decadência de expressão. Agora a minha grande diversão é vender calcinha usada. Já vendi muitas calcinhas: vermelha pomba-gira, branca cor de noiva, amarela ouro, azul cobalto, verde esmeralda, Pink Floyd, e a campeã fio dental Fifth Cent. Imagine você que outro dia cruzei aqui com o Dr. Hollywood que me pediu uma calcinha PT, com uma estrela. Ele queria mesmo era aparecer no Amaury Jr, contando que tinha com exclusividade uma calcinha da Máfia das Manicures. Quanto ao novo projeto do pocket book vamos deixar de molho por breve período, estou indo à China negociar novas calcinhas usadas. Os chineses aodram a Máfia das Manicures, e não aceitam nenhuma calcinha americana, exigem a etiqueta Made In Brazil. As calcinhas que eu uso são Egípcia e a solução é falsificar as etiquetas, na china eles falsificam tudo nem vão perceber que a calcinha fio dental está com etiqueta falsificada. Em breve dou notícias ! Até!”