segunda-feira, 25 de maio de 2009
A CIGANA
Mari Lúcia é uma mulher premiada!
Francisco agora tem aceitado a idéia de separação definitiva. Por um lapso de felicidade, na sua intensa vida conjugal, a esposa vê o marido ter um milésimo momento de lucidez. Ela sente-se aliviada com seu novo ímpeto sobre a separação.
Francisco transformado, não se sabe como ainda,
importuna Lúcia todos os dias para saber se ela já contatou
o advogado.
-Como assim, Francisco? Você quer saber o quê do advogado? Pergunta Lúcia enquanto lambuza o rosto com a máscara de pepino, antes de sair para a sua corrida matinal de domingo na pista do clube Pelé próximo de sua residência.
-Lúcia é melhor enfrentar tudo de frente. Não adianta mais ficarmos tapando o sol com a peneira.
-Francisco eu já pedi pra você deixar o sol quieto. Deixa o sol, ele é rei absoluto, você não. Só quero que você, que diz escrever tão bem, escreva seu nomezinho na certidão de separação. Só isso.
-Lúcia, eu não vou assinar ainda. Fui instruído a ficar de boa e conversar com o teu advogado.
-Instruído? Instruído por quem? Que eu saiba as únicas que te deram instrução que preste na vida fui eu e aquela fiscal vesga do DETRAN. A santinha do pau oco da tua mãe, não te deu nem atenção, quem dirá instrução!
Francisco, forrando com folha de jornais a gaiola de seu rato de estimação, nem dá trela.
-Hein Francisco, fala aí? Que instrução é essa que você recebeu? É de alguma galinha de encruzilhada?
-Há, minha querida, você está pensando que eu sou aquele teu jornalistazinho querido, que escreve palavras de baixo escalão na coluna Zap Roll ? Me poupe, Lúcia.
- Francisco, não jogue a batata quente pra terceiros. Deixa o Finatti, eu gosto dele do jeito que ele é. Um escritor underground com tanto talento como ele tem que pirar mesmo ...
-Lúcia, você sabe bem que as cartas não mentem.
Eu desconfiava de você, mas agora eu tenho certeza.
Enquanto retira a máscara de pepino, Lúcia finge não
ouvir o mintômano do marido. Corre até a sala e aumenta o som do Crayons- Donna Summer.
-Então vamos pôr tudo em pratos limpos. Diz Lúcia decidida a seguir para os capítulos finais da novela da separação. Ela nunca imaginava que separar fosse mais difícil que juntar os trapinhos esfarrapados.
-As cartas não mentem, Lúcia. A Cigana disse que você teve um lance com o meu editor. Aí eu fui juntando os fatos , colando as figurinhas. Lembra quando você queria escrever naquela revista Hair Fashion? Lembra que você até recortou a entrevista com o Walter Mercado, fez uma revisão e levou para o meu editor? Coitada, sem mim não vai conseguir publicar nada, nem na revista Pomba Branca, da Seicho-Nô-Ie.
-Hum, sei. E quem é essa Cigana?
-É uma que minha mãe indicou.
-De novo a santinha do pau oco. Sempre me apunhalando pelas costas. O próximo que pintar na minha vida, tomara que seja órfão
-Lúcia, pior é a tua mãe que parece a bruxa do 71.
-E que linha essa cigana segue tarô egípcio?
-Ela segue a corrente dos Ciganos do Oriente.
- Chinês, Japonês, Coreano ou Tibetano?
-Sei lá, Lúcia. Cigano é cigano não têm pátria.
-E pelo jeito a Cigana não tem marido pra bancar os dentes de ouro, não é Francisco?? Háháháháhá.
-Lúcia, quando você quis casar comigo, tu achava que eu seria podre de rico, né, não?!!! Famoso e podre de rico! Ahaha!
-Pois é, você dizia que ia ser dono de cartório. Fiquei eu que nem barata tonta no meio das traças; livros, sebos, roqueiros e punks. Casei com um cara que a cabeça é um paraíso de minhoca.
-Lúcia, não fica triste, as cartas da Cigana revelaram bons fluidos pra você também, disseram que você tem sorte e vai encontrar um intelectual bem sucedido.
-Quem? O Tony Belloto? Francisco prepara a caneta, semana que vem a gente assina a papelada. E pode ficar com tudo, do abridor de latas até a dívida do banco. De você eu não quero nem notícia ruim.
-Lú, só posso assinar quando a Cigana me disser o dia certo.
-Quanto ela cobra a consulta, hein?
- 51 paus.
- Eu pago, cinco vezes mais! Adiantado. Dá o telefone dessa tal, eu quero desmanchar esse casamento o quanto antes. Vou mudar meu nome artístico e fazer esse o livro “A Máfia da Manicure” um sucesso de crítica e público.
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