quinta-feira, 18 de junho de 2009

A carteira



Marcela casou-se com um amigo do tempo de colégio.
Até os 27 anos viveu o padrão do sonho americano.
Formou-se advogada. Fez-se delegada numa das maiores delegacias de São Paulo. Entre casos de homicídios, roubos, violência doméstica, latrocínios e tráfico de droga, mantinha o equilíbrio e uma vida tranqüila de casa pra
delegacia e da delegacia pra casa. Mulher corajosa, amada pela família
e amigos espiritualistas, que se entregou ao conhecimento do universo
da grã-finagem e da malandragem.
Os olhos denunciam uma cor enigmática, um brilho profundo de quem capta o
transcendental da vida.
Tarde qualquer, depois de mais um expediente na delegacia passou no Shopping Tatuapé para renovar o kit de maquiagem.
Chegou em casa mais cedo do que o comum.
Destrancou a porta. Entrou no apartamento. Pôs as sacolas de compra no sofá.
Escutou um som estranho vindo do quarto.
Abre a porta da suíte principal.
Na cama forrada por lençol de linho egípcio, encontra o marido com a tal
da Avanir. É aquela que diz que é tudo de bom pra a política do Brasil.
Num ímpeto entre a realidade e a ficção bota os dois pra fora do apartamento. Chama a polícia e entrega a chave do apê para uma investigação. Busca de droga, arma, coisa e tal. A polícia encontra apenas a carteira, de couro de jacaré, que pertence à deputada jogada ao lado do criado mudo.
Marcela vai ao Salão de Beleza, manda trocar a cor do cabelo. De castanho muda pra um loiro acobreado. Tom leve. Nada estravagante, afinal é delegada. Não derrama uma lágrima enquanto revela tudo o que viveu. Se nega a participar das eleições no Brasil. Tem certeza de que seu nome não é Avanir. Tempos depois o marido a procura, se diz arrependido, diz ser vitima de uma fraqueza. Confessa que cometeu a traição por um deslize moral: dinheiro. Há quem acredite.

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