
Elisa sempre fora revolucionária e sonhava com o mundo rocker. Deixou pai, mãe e toda cidade de Hortolândia.
Com dinheiro que ganhou vendendo salgadinho de porta em porta pegou um ônibus e desceu em São Paulo. Alugou um quarto numa pensão no bairro da Liberdade. O banheiro não tinha chuveiro quente. Era uma cama de solteiro, um quadro do Sagrado Coração de Jesus, um cômoda, um criado mudo e um delicado abajour lilás.
Elisa tinha a pureza na alma. Sonhava em ser bailarina.No segundo dia em
Elisa tinha a pureza na alma. Sonhava em ser bailarina.No segundo dia em
São Paulo arrumou emprego num restaurante japonês intermediada por Pedrinho Sucesso, o dono da pensão. Pedrinho Sucesso se vestia com calça de tergal e blusa de lã beje gasta pelo tempo, sua única vaidade era a unha do dedo medinho que ele não aparava nunca. O cabelo, repartido ao meio, pingava óleo.
Mas era gente da melhor estirpe. Ele fumava sem parar. Sempre com o cigarro no canto esquerdo da boca, acordava cedo e batia na porta do quarto de Elisa. “Acorda menina, vou te arrumar um trampo”, resmungava ele entre pigarros causados pela fumaça de cigarro. Elisa, logo no terceiro dia na cidade de São Paulo, já estava empregada num restaurante de culinária japonesa. Seu maior barato era apreciar as luminárias da rua Galvão Bueno que tinha um ar non sense das cidades orientais. Depois de sete meses em São Paulo, Elisa conheceu um japonês dono de uma boate com quem se casou e viveu por cinco anos. Fez a vida. Mas não esquecia o sonho do mundo do rock. Largou o marido. Tempos depois conheceu outro japonês. Milton era um cara misterioso, calado, mas extremamente sedutor. Elisa não pensou duas vezes entregou sua alma pura. Seus sentimentos era uma mistura de euforia com ansiedade, achava mesmo que tinha encontrado um samurai. Alguém que a fascinava pelo carisma e que ia tomar conta dela pro resto da vida. Elisa se recusava a pensar que um dia pudesse voltar à pensão de Pedrinho Sucesso que com o passar do anos se manteve vivo e muito conhecido na região. Engravidou de Milton. No quarto mês de gravidez houve uma briga com o parceiro, motivo bobo, daqueles que seriam corriqueiro não fosse a surra que Milton dera em Elisa. Ela chegou no Pronto Socorro com a barriga cheia de marca de cinto e o olho roxo. A família em Hortolândia não soube do episódio. Elisa chorava baixinho, sozinha na garoa da grande metrópole. Voltou pra pensão de Pedrinho Sucesso, e de novo começou a fazer coxinha pra vender na vizinhança. A filha nasceu, Elisa se livrou das drogas e de Milton. Soube que o canalha fazia parte de uma gangue de traficantes e estava sob ameaças. Passou a borracha no passado. Não quis mais notícias do canalha. Numa noite de calor e céu estrelado, Pedrinho Sucesso a convidou pra ir num bar de rock, esses undergrounds. No bar ela conheceu um jardineiro, legítimo brasileiro, que gostava de rock. Conheceu a verdadeira espiritualidade e significado da vida, segundo suas palavras. A jovem de alma pura que não acreditava mais que houvesse pessoas boas, achou na simplicidade alguém especial. Dali em diante sua vida cresceu repleta de flores.
(texto dedicado pra Márcia, mãe da Maitê, que é uma guerreira de alma pura e sorriso cativante que merece toda felicidade do mundo, é pra ler ouvindo The Mystic´s Dream, Loreena Macknitt)

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