quinta-feira, 18 de junho de 2009

O vibrador



Há dez anos ela não transava alguém.
Depois de uma gravidez indesejada pelo parceiro de tão pouco tempo de relacionamento, Karina decidiu se fechar no próprio mundo. A atividade de enfermeira a estressava demais. Mas tinha que garantir o sustento do rebento. Nas horas de folga costumava frequentar os Sex Shops em São Paulo. Descobriu as vantagens do vibrador através de uma revista feminina. Experimentou, gostou e não parou nunca mais. Por dez anos seu parceiro foi uma máquina made U.S.A.
Depois do pai do rebento confiou no primeiro que viu. O primeiro que viu foi o psiquiatra.
O psiquiatra a entupiu de remédios de receita controlada e recomendou caminhada no Parque.
Os remédios lesaram suas emoções.
O Lexotan passou a ser, única e exclusivamente, seu amigo de todas as horas.
Para ela o mundo era o caos.
Diagnóstico Psiquiátrico: bipolaridade alto grau.
Teve um relacionamento relâmpago com um eletricista de Jarinú, sem instrução erudita nenhuma. Não o quiz. Por causa da porra da falta de erudição, prefiriu o vibrador.
Tempos depois num chat de bate-papo achou um jornalista underground. Cara cabeça. Junkie total. Mãos alvas e macias, segundo descrição de Karina na fila do setor de psiquiatria do Hospital das Clínicas. Norman, como era chamado entre seus amigos mais próximos, era usuário de droga e não tinha o hábito de usar camisinha.
Karina apaixonou-se. Disfarçava a emoção entre sorrisos amarelados pela nicotina. Largou o vibrador no armário do banheiro que tinha os azulejos tudo encardido.
Tempos depois começou a sentir uma dor-de-cabeça insuportável.
Diagnóstico médico: Hepatite C.
Foi ao Salão de Beleza. A manicure mal conseguia pintar o esmalte cor ameixa. Ela ficou conhecida como Karina treme-treme. Tremia por causa do efeito de tanto psicotropico. Tremia com a ação do vibrador, coisa que ela escancarou corajosamente no Salão de Beleza. Tinha um ar de intelectual, usava óculos de grau, fundo-de-garrafa, era alta, encorpada, cabelos escuros lisos escorridos na altura dos ombros curvados.
Diagnóstico do Salão de Beleza: excesso de orgulho e solidão.
Da janela do apartamento, na Cerro Corá, em Pinheiros, olhava São Paulo como quem enxerga Berlin. Numa noite nublada o céu é coberto por uma névoa triste de poluição. A fumaça do cigarro embolava suas cordas vocais, o timbre de sua voz soava como um lento desmaio.

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